A utopia de uma sociedade classe média é uma ilusão, por Wilton Cardoso

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Tanto o ideário neoliberal quanto quanto o novo keynesianismo que está emergindo desta crise pandêmica e econômica têm um ideal de civilização, a atingida por meio de crescimento econômico e pela inclusão da maioria esmagadora da população no que chamamos de classe média.

Num aspecto, este ideal se tornou vitorioso: a estrutura psíquica das massas populacionais do planeta é de classe média ― ou tendem a se tornar. As pessoas, em geral, se vêem como capital individual auto empreendedor, autônomas para atuar no mercado a ponto de não necessitarem de tutela ou proteção estatal nem de patrões que fiscalizem seu desempenho: são, em geral, patrões e empregadas de si-mesmas.

Se na prática muitas pessoas não conseguem cumprir este imperativo moral, por não dispor da auto-disciplina necessária para se comportar como empreendedoras de si, isto não significa a disseminação entre as massas da mentalidade “classe média” tenha fracassado, e sim que sua performance bem sucedida é muito difícil, como acontece com todas as exigências culturais excessivamente rígidas.

A consolidação da mentalidade meritocrática de classe média entre as massas, inclusive de pobres, se verifica na popularidade crescente da ideia de que os indivíduos vencedores ou perdedores (os pobres) são responsáveis por seu sucesso ou fracasso. E, em geral, os perdedores aceitam esta auto-responsabilização, deixando de perceber as possíveis causas sociais de seu fracasso pessoal.

Como exemplo, a corrida das classes populares às igrejas neopentecostais no Brasil dos últimos 30 anos significa, entre outras coisas, o reconhecimento de si mesmo como responsável por sua própria pobreza e a disposição de reforçar ou reeducar espiritualmente sua estrutura psíquica de “classe média”. Mas também, e principalmente, a disposição de se comportar como indivíduo de classe média, dedicando-se ardorosamente ao trabalho, estudos e orações.

Os rigores espirituais do renascimento evangélico para Cristo são também os do renascimento mental para o mercado capitalista, principalmente na obsessão ascética pelos estudos e trabalho. A visão neopentecostal é a de que, no fim das contas, a alma disciplinada e sua família serão agraciadas com a prosperidade, concebida, ao mesmo tempo, como riqueza espiritual e monetária, como prêmio ao mérito concedido por Deus ainda em vida. (Tratei deste assunto em um outro ensaio).

Hoje em dia, o discurso das esquerdas, de culpar o sistema capitalista ou o neoliberalismo pelo fracasso pessoal costuma ter muito pouca penetração nas massas populares do mundo todo. No Brasil, mesmo entre os não evangélicos, a mentalidade meritocrática e individualista se impôs de forma esmagadora.

E como já afirmei no ensaio anterior a este, creio que essa vitória da psique meritocrática de classe média não se trata de ideologia das classes dominantes imposta aos trabalhadores, mas de um desenvolvimento estrutural da subjetividade capitalista, que se consolida na sua fase neoliberal (1980 até agora), mas cujo gérmen foi “plantado” na psique moderna ainda no início do capitalismo, a partir das revoluções Industrial e Francesa. Em todo caso, essa questão da mentalidade de classe média como um desenvolvimento lógico (lógica do capital) da estrutura subjetiva do homem moderno não é um assunto para este ensaio.

A utopia de uma sociedade de classe média e a realidade da favelização do mundo 

A questão que eu quero colocar é que esse predomínio psíquico da meritocracia individualista, inclusive entre os pobres, se vincula ao desejo de ser tornar, efetivamente, classe média. A utopia neoliberal, mas também do novo progressismo keynesiano, é a de uma civilização de classe média, na qual há alguns ricos, uma maioria esmagadora de classe média, e uma pequena minoria de pobres ― os fracassados que não desempenharam bem o seu papel de homo economicus, a serem tratados com um misto de pena e desprezo, mas que, em nome da civilização, deveriam ser amparados por políticas sociais e pela caridade.

O problema é que a realização dessa utopia é um ilusão cada vez mais distante da realidade do capitalismo atual, cuja tendência é a de empobrecer as classes médias e tornar os pobres em pessoas supérfluas, inúteis para a reprodução do capital e, portanto, para a sociedade mercantil. O capitalismo atual produz mais e mais exclusão social, na contramão do sonho meritocrático da inclusão pelo poder de consumo.

Todos os dados estatísticos, produzidos pela própria ciência econômica dominante, indicam um aprofundamento, nos últimos 40 anos, das desigualdades socioeconômicas entre indivíduos e nações, além da concentração de riqueza nas mãos de pouquíssimas pessoas e corporações. E não há, no horizonte, sinal de que isso irá se modificar. Muito pelo contrário, todos os sinais são de um crescimento ainda mais acelerado das desigualdades e da concentração de renda e riqueza.

A desigualdade, provocada pelo que Marx chama de concentração e centralização do capital, é uma tendência de longo prazo do capitalismo, que nenhuma intervenção política pode reverter, como já comentei em outro artigo a respeito do determinismo do capital. No máximo esta tendência pode ser mitigada ou freada por um tempo, como na Europa e EUA do estado do bem estar social (1945-1975) ou no Brasil da era petista (2002-2016).

Isso porque o capitalismo, uma vez posto em movimento se torna um sistema autônomo e determinista, cujo fim último é a acumulação de capital e não o bem estar humano. E a concentração de renda e riqueza é um resultado lógico do desenvolvimento dos mercados, em que os capitais maiores tendem a absorver os menores e o trabalho tende a ser superexplorado, resultando na realidade atual da “flexibilização” que na prática significa mais tempo de trabalho, menos remuneração e menos direitos.

Ou seja, o capitalismo é um sistema com lógica própria que se torna autônomo em relação às vontades e necessidades das pessoas e que, no fim das contas, ameaça a própria vida humana e a natureza ao instrumentalizá-las para acumulação do capital. E a não ser provisoriamente, o capitalismo e sua lógica que provoca a destruição social e ecológica não podem ser humanizados ou controlados, como acreditam os keynesianos. A única possibilidade de frear seu processo destrutivo é a emancipação da sociedade mercantil, com a fundação de uma outra sociedade não capitalista, igualitária e ecológica.

A utopia de uma população majoritariamente classe média se choca, portanto, com a lógica irreversível do sistema mercantil, que é a do aumento da concentração da riqueza nas mãos de uma reduzidíssima elite mundial, secundada por uma pequena (e numericamente decrescente) classe média e envolta num mar de pobreza crescente. E o pobres tendem a se tornam cada vez mais supérfluos para o capital, ainda mais em tempos de automação massiva da produção de capital, com as máquinas substituindo o trabalho humano.

A realidade dos últimos 40 anos de neoliberalismo comprova o acerto da ideias de Marx, que afirmam que a tendência de longo prazo do capitalismo é o aumento da desigualdade e pobreza. Após o breve suspiro distributivista dos anos dourados europeu e norte-americano (1945-75), o capitalismo retornou a seu “fluxo normal” de aumento da pobreza em meio à abundância.

A frustração do desejo de ser classe média e a explosão do fascismo

Diante dessa realidade de aumento da pobreza, o sonho individual de ingressar na classe média consumista e a utopia coletiva de uma sociedade massivamente de classe média serão inevitavelmente frustrados. Nem a direita neoliberal, nem a esquerda progressista podem realizar este desejo das massas de ascender ao “paraíso na terra” da renda alta e do consumo farto.

O resultado desse fracasso são os sentimentos de frustração e impotência, tanto de indivíduos quanto de grupos sociais, que logo se transmutam em medo (de empobrecimento ou de se continuar eternamente pobre), revolta difusa, ódio, inveja e ressentimento.

Estes afetos sombrios são um solo fértil para o surgimento do fascismo, a pior praga que se desenvolve nas profundezas psíquicas e políticas capitalismo. Nas terras fertilizadas pelo ódio, o fascismo floresce vigoroso, com seus líderes moralistas de “pulso firme”, seus delírios de grandeza e virilidade para compensar o sentimento de impotência (“Brasil acima de todos, Deus acima de tudo”), seus bodes expiatórios a serem perseguidos e eliminados (judeus, negros, gays, comunistas, políticos corruptos, imigrantes etc) e seu desejo por morte e destruição sem fim.

A psique de classe média da massas, individualista, meritocrática, que age e se vê como capital humano auto-empreendedor é incapaz de perceber que seu fracasso econômico (queda para a pobreza ou impossibilidade de subir às classes médias) como resultado da lógica fria, abstrata e impessoal do capitalismo, pois sua visão visão de mundo é condicionada pela própria lógica do capital, sem que o sujeito saiba que seus princípios mais elementares, como a dignidade do trabalho, a competitividade, a racionalidade instrumental, são, na verdade, estruturas psíquicas inconscientes, desenvolvidas para atender as necessidades do capital e sua acumulação e não as necessidades humanas.

Diante dessa impossibilidade de perceber o capitalismo como responsável pelo seu fracasso, os indivíduos (de classe média, mas também os pobres) oscilam entre culpar a si mesmo, como convém à consciência neoliberal, ou culpar um grupo social responsável pela corrupção (moral, econômica, política) do mundo e que resultou no seu fracasso individual.

O fascismo emerge quando uma parte massiva dos indivíduos deixam de culpar a si-mesmos por seu fracasso em se tornar ou se manter na classe média e encontram um bode expiatório (um grupo social corrupto) para a crise capitalista que os empobrece ou os ameaça de caírem na pobreza.

O nascimento do fascismo, portanto, é um processo de repolitização e de retomada de uma visão coletiva e mesmo revolucionária das massas, que recusa a culpabilização de si pelo fracasso social. Trata-se, portanto, de uma revolta contra a mentalidade individualista e meritocrática que estrutura o sujeito pós-moderno neoliberal, mas sem consciência disso, como já abordei, com mais detalhes, em outro artigo. Por conta dessa inconsciência, a maior parte da mentalidade do homo economicus capitalista será mantida e até reforçada pelo fascismo, como, por exemplo, a dignidade do trabalho e do lucro.

Mas, no fundo, o homem fascista recém politizado instrumentaliza o homo economicus a-político, assim como o fascismo, ao se consolidar, instrumentaliza o capitalismo, cuja lógica da produção pela produção passa a servir ao ideal fascista de destruição pela destruição. A partir daí, todas as potências técnicas e materiais do capitalismo, em vez de servir ao lucro (reprodução do capital), passam a servir, em última instância, à produção da morte, da guerra e da destruição ilimitadas, até culminar na autodestruição, destino suicidário de todos os fascismos.

A volta da politização e mobilização social ao modo fascista assume ares revolucionários e, de fato, ela provoca uma subversão na sociedade capitalista, não em direção a uma nova racionalidade que substitua a razão instrumental, mas em favor da irrupção da irracionalidade absoluta que deseja apenas a destruição.

A nova política revolucionária da massa fascista passa a ser, então, a necropolítica de eliminação dos inimigos e dos fracos. Deixar os velhos e vulneráveis morrerem por covid é deixar a “natureza” selecionar os mais fortes e funcionais. A matança dos negros favelados, a criminalização e opressão dos progressistas e manifestantes antifascistas significa purificar o mundo dos criminosos e terroristas.

Que fazer?

A solução para o impasse do fascismo não passa, portanto, pela utopia inatingível de construção de uma sociedade de massas de classe média, seja pela via neoliberal ou progressista (keynesiana). Insistir nessa utopia de democratização da renda e do consumo significa arremessar o desejo (de ser classe média) contra o muro da realidade capitalista (de favelização do mundo) que frustra a realização desse desejo. Este “choque de realidade“ irá aumentar a frustração e o sentimento de impotência, tanto a nível individual quanto coletivo, que irá desaguar, fatalmente, no fortalecimento do fascismo.

A solução para este impasse é a conscientização de que o capitalismo e sua lógica abstrata e impessoal são os verdadeiros responsáveis pelo fracasso coletivo da sociedade da mercadoria. Enquanto tal conscientização não ocorre, o homo economicus continuará a culpar o indivíduo pelo “seu fracasso pessoal”. E nos momentos de agudização das crises capitalistas, como agora, quando o sofrimento psíquico e social se tornam insuportáveis, a culpa tenderá a ser canalizada para algum grupo social eleito como bode expiatório a ser odiado, reprimido e eliminado, alimentando a espiral fascista.

A conscientização de que o sistema capitalista e a lógica da mercadoria são os verdadeiros responsáveis pela exclusão social é um processo difícil. Como humanos, tendemos a personalizar os culpados e mesmo as revoltas das esquerdas são ávidas por encontrar grupos sociais responsáveis pelo sofrimento do povo, como o 1%, a banca neoliberal, os especuladores e CEOs que administram as grandes corporações etc.

É mais fácil projetar o mal em indivíduos ou grupos sociais (sujeitos coletivos) do que admitir que o nosso problema o capital, um “ser social”, inconsciente, amoral (nem bom nem mau) abstrato e puramente quantitativo, inventado por nós e que agora nos domina.

Mais difícil ainda reconhecer a “culpa” do capital porque este “ser” se encarnou em cada um de nós e estrutura nossa psique desde suas bases. Pensamos, sentimos, vemos o mundo e a nós mesmo e principalmente agimos, a partir da lógica da mercadoria. Uma prova de nosso condicionamento pelo capital é o fato de acharmos natural e digno o fato de trabalharmos e recebermos por nosso trabalho, ou seja, naturalizamos e dignificamos o ato de nos vendermos no mercado como mercadoria.

Criticar o capital significa, portanto, questionar a nós mesmo, autocriticar nossa formação psíquica de base, sobre a qual nos constituímos como seres humanos. Significa questionar nossa identidade como “ser humano moderno” ou “pós-moderno” e abalar nossas verdades e convicções (éticas, científicas, políticas, pessoais) mais profundas, como, por exemplo, nossa fé democrática, nosso conceito de liberdade individual, os direitos civis, a dignidade do trabalho, a necessidade do dinheiro e do estado, a legitimidade da propriedade privada, a centralidade da economia, a neutralidade da técnica e da ciência etc.

Já que o capital nos habita e estrutura de nossas profundezas psíquicas, reconhecer que o “ser” capital e o sistema abstrato e impessoal que ele rege, o capitalismo, são os verdadeiros culpados por nosso fracasso como coletividade humana, significa reconhecer que  nós mesmos (pobres, de classe média ou ricos) somos os “culpados” por nosso fracasso como sociedade. Mas não se trata de uma culpa individual ou decorrente do mau uso do livre arbítrio e nossas capacidades racionais, como quer o cristianismo, o iluminismo ou o neoliberalismo.

Melhor que usar o termo culpa é falar sobre responsabilidade. Somos responsáveis, como coletividade e de forma inconsciente, por chegar a tal situação histórica de sermos instrumentalizados pelo capital que nós mesmos criamos.

Embora esse processo de conscientização seja difícil, ele é possível, principalmente em momentos de crise aguda capitalista, como agora, quando a o desenvolvimento da lógica da mercadoria explicita todas as suas contradições. É por essas brechas contraditórias que a rebelião fascista questiona o capital de forma inconsciente e irracional, instaurando sua revolução destrutiva e sua necropolítica. Por essas mesmas brechas do capital, é possível, e mais que isso, urgente e necessário, que as pessoas tomem consciência de que a causa real de seu “fracasso” e seu sofrimento não são grupos sociais específicos a serem odiados, mas sim a dominação abstrata do capital, que nos coage objetivamente a partir do fora social e suas regras de mercado, mas também a partir de nossa própria interioridade subjetiva.

A conscientização é um processo doloroso, mas libertador, de perceber esta esta situação de dominação abstrata do capital. A partir daí teremos a possibilidade e, mais que isso, a responsabilidade de construir, de forma consciente, uma outra sociedade realmente solidária e comunitária, livre a da lógica expansiva e desumanizadora do capital. E livre, em consequência, dos perigos da rebelião irracional do fascismo.

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