Artigo | As desigualdades sociais que a pandemia da covid-19 nos mostra

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Pesquisador da UFF afirma que falta de amparo do Estado pode fazer com que Covid-19 intensifique assimetrias no Brasil

Huri Paz é pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF), integrante do Núcleo de Estudos Guerreiro Ramos e associado ao Afro/CEBRAP – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento

Comprovadamente, um milhão de pessoas estão contaminadas pelo novo coronavírus no mundo. A marca foi alcançada nesta quinta-feira, (2), conforme contagem da Universidade Johns Hopkins, referência no mapeamento mundial da Covid-19. O número de vítimas fatais já passa de 51 mil.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem expressado sua preocupação com a ampliação da força de contágio do vírus nas cidades que são marcadas pelos seus altos índices de desigualdade social e, consequentemente, precário acesso ao saneamento básico local. Para o diretor geral da agência, Tedros Adhanom, os governos federais dos países latino-americanos precisarão desenvolver medidas eficazes e transversais de combate ao vírus, para não ver os mais pobres sendo os mais vitimados pela falta de acesso a recursos públicos. 

Entretanto, não é necessário irmos diretamente à América Latina para verificarmos as diversas instâncias em que a Covid-19 tem atingido diferentes estratos da população. A cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, atualmente concentra o maior número de casos no país, contabilizando 49.707 infectados, 10.590 hospitalizados e 1.562 mortos. Esses são os dados oficiais até as 17h do dia 02/04/2020. Ao analisarmos mais de perto esses óbitos, podemos ver como este índice tem atingido mais largamente os distritos da cidade com maior concentração de pessoas não-brancas.


Porcentagem de residentes brancos e número de mortes por Covid-19 por distrito em Nova York (EUA) / Huri Paz

Este achado é flagrante quando comparamos o distrito de Manhattan ao do Bronx, e verificamos a grande disparidade, não só no número de mortes, mas na diferença percentual entre moradores brancos e não-brancos, como negros, asiáticos, latinos e de origem indígena. Ao criarmos um mapa com as Zonas da cidade do Rio de Janeiro que não possuem acesso ao abastecimento de água da CEDAE, temos o seguinte:


Porcentagem de domicílios no Rio de Janeiro por setor censitário sem abastecimento de água da rede geral (CEDAE), mais vulnerável à Covid-19 / Huri Paz

Neste censo, fica evidente como as Zonas Oeste e Norte da cidade do Rio de Janeiro são as mais vulneráveis à contaminação da Covid-19, por concentrarem as maiores porcentagens de domicílio sem abastecimento da CEDAE, órgão público responsável pela distribuição.
    
A pandemia da Covid-19 irá desvelar desigualdades históricas nas sociedades latino-americanas. O Brasil teve a oportunidade de aprender com os acertos e os erros de outros países que tiveram um aumento do número de infectados muito antes de nós, como a Itália e a China. Neste sentido, um alinhamento que congregue as diferentes esferas do Estado brasileiro é necessário para o desenvolvimento de políticas transversais, que possam garantir segurança alimentar, manutenção de renda mínima, acesso a produtos de higiene e etc. Caso contrário, a cada dia que esse alinhamento não é construído, com idas e vindas sobre as regras do distanciamento social, por exemplo, mais brasileiros e brasileiras correm o risco de terem suas vidas ceifadas pela falta de amparo do Estado e, possivelmente, teremos um cenário explícito de desigualdades raciais e econômicas entre as mortes registradas, como é o caso da cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. 

Vale ressaltar que os mapas acima só puderam ser desenvolvidos por conta de dados livres, disponibilizados por diferentes estâncias do Estado, tanto dos Estados Unidos, como do Brasil, entretanto, o atual Governo de Jair Bolsonaro tem demonstrado que prefere seguir o caminho contrário, como o estabelecimento da Medida Provisória 928/2020 que suspenderia o prazo de resposta sobre informações públicas durante a pandemia. Medida que logo depois foi suspensa pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a pedido do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Através de dados abertos e informações públicas, conseguiremos pressionar Estados e Governos e termos um termômetro da atual pandemia que assola a população brasileira.

FONTE: BRASIL DE FATO
FOTO: Fernando Frazão / Agência Brasil

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