Como será o Brasil quando isso tudo acabar? Seremos capazes de conviver juntos?

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Por Henrique Rodrigues: Não há mal que sempre dure. Um dia o pesadelo vai passar e as cicatrizes serão profundas. Será possível olhar na cara dessas frações irracionais tão cruéis que exortam a morte e destilam ódio o tempo todo?

Ainda que os números das pesquisas sejam imprecisos e variáveis, há uma parcela significativa (que pode ir de 25% a 50%) da população brasileira que se aliou em torno de um discurso baseado na morte, no ódio incondicional e numa teimosia infantil insuportável durante a mais letal pandemia dos últimos cem anos.

Por um azar desolador, ou por castigo divino, a pior de todas as mortandades ocorridas nas últimas gerações foi se instalar justamente no momento político mais triste da história do Brasil. Um homem de cariz demoníaco, que enxerga na morte (violenta ou não) uma via para resolver tudo aquilo que entende ser problema, decidiu instrumentalizar o horror, transformando pilhas de caixões e incontáveis covas rasas em commodities supervalorizadas.

Os seguidores de sua seita deliram e se radicalizam mais à medida que Bolsonaro capricha no grotesco. Quanto mais frases e ações imorais, quanto maiores os arroubos de mau-caratismo, mais a fidelidade se acentua e a adesão aumenta.

Argumentos estúpidos, inteligência parca, teorias conspiratórias, falta de vergonha e senso do ridículo. Há também casos em que tudo isso soma-se a atitudes violentas. Uma gente confusa, detestável, intragável. Falam da importância de revólveres em meio à falência do sistema público de saúde. Regurgitam dia e noite uma baboseira cretina sobre vacinas que vão controlar mentes, desenvolver câncer e matar criancinhas. Enfim, um verdadeiro substrato concentrado do pior lixo tóxico humano.

Se alguém acha que vou gastar um minuto do meu preciso tempo tentando “convencer” ou “esclarecer” esses néscios, engana-se. Eles estão unidos por uma coisa sobre a qual venho falando há mais de dois anos: senso de pertencimento.

Sim, eles estão juntos como num clube, numa torcida de futebol, como numa associação, ou federação. O bolsonarismo é uma expressão de natureza social. Todos nós conhecemos durante a vida vários idiotas que sempre tentaram aparecer defendendo coisas abjetas. Que queriam ser o centro das atenções e serem reconhecidos por suas opiniões nojentas, sem qualquer pudor de parecerem pessoas ruins. O fato é que todos eles tornaram-se bolsonaristas e hoje formam esse cinturão maligno que emergiu de 2018 para cá.

Esse não é um fenômeno inédito. Claro que seus contornos e peculiaridades o fazem singular, mas já houve muita coisa assim por esse mundão, pelas mais diversas razões, e nós devemos tomar como exemplo esses casos para pensarmos como será encarar uma convivência “normal” com a malta sebosa de hoje no dia em que tudo isso tiver fim.

Anos atrás, antes da onda de psicopatia que nos assola, li um livro escrito por um jornalista francês (nascido em Madagascar) chamado Jean Hatzfeld. A obra, “Uma Temporada de Facões”, é um mergulho nos testemunhos e na realidade atual (de 2005, data da publicação) dos sobreviventes e algozes do Genocídio de Ruanda, ocorrido em 1.994.

Há uma infinidade de relatos de gente que diariamente cruza em lugares públicos com pessoas que poucos anos antes as perseguiam nas ruas com machados e facões nas mãos. Também há uma série de entrevistas com cidadãos “normais” que dizem “se arrepender” de terem saído de casa babando de ódio, de faca na mão, para matar vizinhos, parentes, colegas de trabalho, de faculdade, só porque abraçaram a irracionalidade genocida ideológica pregada por Robert Kajuga e sua milícia assassina Interahamwe.

Num outro livro, “Da Rosa ao Pó – Histórias da Bósnia pós-Genocídio”, escrito pelo jornalista brasileiro Gustavo Silva, uma grande reportagem narra a Marcha pela Paz, que ocorre todos os anos no país que era parte da antiga Iugoslávia. O evento, que consiste numa caminhada de 110 quilômetros em meio à floresta, é uma homenagem aos mortos no Genocídio de Srebrenica, em 1.995, e aos sobreviventes que precisaram percorrer exatamente aquele mesmo percurso para não morrem pelas mãos odiosas dos sérvios liderados por Radovan Karadzic e Ratko Mladic,         que foram para lata de lixo da História como os carniceiros dos Balcãs.

Na obra, escrita quase 15 anos depois do trágico acontecimento, ainda constam os vestígios do ódio numa sociedade que precisou conviver “junta” depois do morticínio. Soldados servo-bósnios da República Srpska (a entidade autônoma sérvia existente dentro da Bósnia Herzegovina até hoje) ainda cantam musiquinhas fúnebres e macabras para debochar dos bósnios chacinados, numa atmosfera de morbidez que persiste num país que há mais de 20 anos “vive em paz”.

Realmente não podemos criar uma paridade absoluta com a situação vivida em nosso país pós-2018. Os casos de Ruanda e da Bósnia foram extremos se comparados ao ódio que vigora hoje no Brasil. Não tivemos um genocídio nos moldes tradicionais, mas as gargalhadas e o desprezo irônico com que Jair Bolsonaro e sua caterva satirizam os 185 mil mortos pela Covid-19 ainda vão ecoar por muitos anos em nossas cabeças.

É preciso estar preparado para o convívio mórbido com essa gentalha funesta daqui a algum tempo. Muitos deles estarão por aí circulando, assim como muitos de nós. Eu mesmo, nem sei como reagirei a tanta canalhice.

FONTE: REVISTA FÓRUM
FOTO: redes sociais