Opinião | O Brasil saiu do mapa da fome em 2014…mas está voltando

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O aumento observado dos índices de desnutrição crônica a partir de 2014 está claramente associado crise

A fome mostra sua cara de novo no país. Dados oficiais do Ministério da Saúde apontam que após uma tendência clara de redução da prevalência de desnutrição crônica em crianças de 2007 a 2013, a tendência se inverte a partir de 2014, voltando a subir em todo o país. O indicador altura para idade de crianças com menos de 60 meses, é o melhor indicador da situação nutricional de uma sociedade.

Em 2014, depois de 12 anos de implementação de um conjunto de políticas públicas, o Brasil havia saído do mapa da fome. Isto foi de fato um ganho, mas não significava que estava tudo resolvido, ainda havia bolsões de fome que tinham que ser enfrentados, em particular em meio a comunidades indígenas, quilombolas, entre outras, nas quais a presença de insegurança alimentar e nutricional continuava alta, apesar da significativa redução da mesma nestes grupos sociais.

O aumento observado dos índices de desnutrição crônica, a partir de 2014, está claramente associado à profunda crise financeira e política que se desencadeou no Brasil a partir daquele ano, que eventualmente levou ao golpe legislativo em 2016. Isto veio associado ao desmonte do conjunto de políticas públicas de inclusão social, de redução de desigualdades, de promoção da agricultura familiar, de garantia dos territórios indígenas, quilombolas, entre outros.

O mais grave é que o conjunto de medidas adotadas pelo governo federal apontam para um agravamento ainda maior na esfera da produção e qualidade da alimentação da população brasileira. O fechamento do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, organismo responsável pelo aconselhamento, elaboração e monitoramento das políticas de alimentação e nutrição no pais, o abandono total do apoio a agricultura familiar,  a liberação e o estímulo ao uso abusivo de agrotóxicos, o desmonte criminoso da política indigenista, agrária, de promoção das populações tradicionais, e da regulamentação ambiental associados a uma total falta de sensibilidade em relação à necessidade de políticas de inclusão das populações marginalizadas pelo desenvolvimento a serviço das elites, colocam em risco o conjunto das condições necessárias à produção de comida de verdade e de qualidade para o consumo da população brasileira

*Pesquisador associado do Departamento de Nutrição da UFPE Docente afiliado do Departamento de Nutrição e estudos da alimentação da Universidade de Syracuse, New York

FONTE: Brasil De Fato
FOTO: EBC

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